18/04/2024
QUINTA-FEIRA POÉTICA
ALMA IMPUDICA
dia e noite vejo
alma crua
vejo, muito, vejo
exposição, exibição
almas longe da vida, vida
Em nome da liberdade
adora o deus vaidade
mostra tudo
mostra
até as algas anónimas mostra
Em nome da vaidade
quere livrar-se do tecido
deixar o tronco abandonado
andar com a peça a metade
Em nome de é vendo que se gosta
exibem os repolhos
e os caroços finos e grossos
e lá nos abraços
sente-se... ó alma!
Em nome do calor
andam apenas as folhas
leves e voantes
mínimos toques
vê-se o motor a gasolina
Em nome do corpo é meu
a dignidade o vento roeu
eh... vejo
almas despojadas
sem norte nem horizonte
Em nome da beleza
as almas perderam a delicadeza
voou a elegância
vemos somente a arrogância
é fome...
Em nome da moda
a alma tornou-se muda
tanto se fala,
tanto se faz
é louco, é atrasado quem o diz
Em nome de que sou poderosa
a alma deixou de brilhar como a rosa
juro, vi, vi mesmo...
não guarda o conteúdo como a prosa
ati jardar e siliconar não é pobreza
Em nome de que sou linda
toda carne estendida
toda mosca morde
e se o coração não te arde
uma alma descomedida é
Em nome da vida é minha
desrespeita-se...
e no momento da consequência
não enfrenta prejuízo sozinha
respeita-se, limite tem a ciência
Em nome de que sou vaidosa
vem também: eu sou apetitosa
e daí qualquer um merece navegar
mergulhar... afunda e afunda-se
alma impossível de resgatar
Em nome da vida é breve
conhece todas pensões
já coze muitos calções
alma crua, alma da rua
respeite-se, dignifique-se
POETA NUNCA VISTO, ABRIL DE 2000.24