01/03/2026
Curtindo a Vida Adoidado se tornou o que é devido a uma série de fatores. O filme completará quatro décadas de seu lançamento nos EUA em 11 de junho. No Brasil, chegaria aos cinemas somente em 19 de dezembro. A obra-prima de John Hughes, cineasta que melhor compreendeu o universo da adolescência na história do cinema, tem roteiro certeiro, gags imperdíveis, ótimo elenco, representa o desejo de milhões de adolescentes e principalmente: possui, dentro de sua trama cômica, um subtexto universal resumido na frase do protagonista Ferris Bueller, interpretado por Matthew Broderick: “A vida se move muito rápido. Se você não para e olha em volta de vez em quando, pode perdê-la”. É papo sério no formato de cultura pop.
Inacreditavelmente escrito por Hughes em apenas seis dias, para evitar uma greve do sindicato dos roteiristas, a comédia mostra um dia na vida de Ferris. E é só o dia começar que logo percebemos o porquê do personagem ter virado cult, célebre, ídolo da garotada que ainda brincava de He-Man e jogava Atari nos anos 80.
Ferris não precisa ser fortão, atleta ou garanhão para conquistar nossa simpatia. Ele é simplesmente… legal. Ou cool diriam alguns. Dos nerds aos atletas, das patricinhas às garotas de torcida, não há quem resista ao carisma do rapaz, inclusive seu melhor amigo Cameron (Alan Ruck) e sua namorada, Sloane (a gatinha Mia Sara). Ao acordar e perceber que o céu está lindo, Ferris decide que não pode desperdiçar um dia especial indo à escola. Finge estar doente, m***a um aparato invejável (quem não sonhou usar os truques dele na época de colégio para fugir da aula?) no quarto para despistar os pais, tira Cameron de casa e Sloane da escola e sai (na Ferrari pertencente ao pai do amigo) para curtir os locais mais descolados de Chicago. Por tabela, causa a revolta do diretor (Jeffrey Jones) mala da escola e da irmã mais velha e invejosa (Jennifer Grey), que faz de tudo para entregar o caçula.
Divertido do início ao fim, Curtindo a Vida Adoidado já nasceu clássico. Apesar das roupas e penteados característicos da década de 80, as situações apresentadas durante a trama são atemporais. Entre tantas cenas inesquecíveis, aquela que mostra Ferris em cima de um carro alegórico, numa parada alemã em Chicago, e que leva milhares de pessoas a cantarem determinada música, conseguiu o feito de fazer uma canção que foi interpretada pelos Beatles ser mais lembrada pelo filme do que pelos fab four. Twist and Shout, de Phil Medley e Bert Russell. Mas nada sairia tão na mosca se o elenco não demonstrasse tamanha química e desenvoltura em cena. Matthew Broderick, apesar de não ser mais um garoto na época das gravações, caiu como uma luva para o papel principal. Sua atuação lhe rendeu uma indicação ao Globo de Ouro de Ator em Comédia/Musical. O jeitão moleque, simpático, um pouco cínico, cúmplice do espectador (já que mais de uma vez olha para a câmera e dialoga com o público) fizeram o personagem impulsionar a carreira do intérprete, que mesmo mantendo-se trabalhando e famoso ao longo dos anos, jamais repetiu o feito.
O restante do elenco não f**a atrás. A Sloane de Mia Sara (que depois faria filmes B e até Timecop, com Van Damme) une classe e sensualidade. O par ideal para Ferris. Alan Ruck, na casa dos 30 anos na época do longa, não aparenta a idade e completa de forma perfeita o trio protagonista na pele do sujeito inseguro que teme o pai e a qualquer momento pode se revoltar. Jennifer Grey - que passou a namorar Broderick durante as filmagens e no ano seguinte estrelaria outro sucesso, Dirty Dancing, ao lado de Patrick Swayze - está perfeitamente insuportável como a irmã megera. Há ainda: um surpreendente Jeffrey Jones (mais magro que seu personagem em Amadeus) vive o diretor rabugento; o novinho Charlie Sheen (no mesmo ano fez Platoon) em pequena aparição; os atores Cindy Pickett e Lyman Ward (que se casaram na vida real), respectivamente a mãe e o pai de Ferris; até os dois figuraças do estacionamento onde Ferris, Sloane e Cameron deixam a Ferrari. Todos estão em sintonia com o espírito da obra.
Com trilha sonora deliciosa, Curtindo a Vida Adoidado garante sorrisos do início ao fim, principalmente para os jovens, que vibram a cada façanha do protagonista. Ferris, na mesma década que deu ao mundo Rambo e tantos heróis anabolizados, foi o verdadeiro ícone da garotada.
Saudade de John Hughes, o cineasta dos adolescentes
John Hughes faleceu em 6 de agosto de 2009, vítima de um infarto em Nova York, onde passava suas férias. Chamado de Spielberg das comédias sobre jovens, ídolo de Kevin Smith (Procura-se Amy), Hughes, que retratou suas histórias sempre nos arredores de Chicago, nasceu em 1950, num dia 18 de fevereiro, em Lansing, Michigan. Estudou na Glenbrook North High School e deu início à sua brilhante carreira escrevendo, na década de 70, para a humorística National Lampoon’s Magazine. Seu talento como criador impressionava. Era capaz de escrever um roteiro em uma semana e tinha a sensibilidade necessária que muitos pais não tiveram e ainda não possuem: compreender os adolescentes, fazer o jovem identif**ar-se, falando de forma realista e natural para esse público. Os nerds, então, encontraram nele um amigo, um confidente, deixaram de ser o motivo de chacota para virarem heróis. Hughes nos deu esperança.
Roteirizou Class Reunion (1982), Nate and Hayes e Vacation (ambos de 1983), mas foi em 1984 que ele começou a ganhar o mundo, lançando ao estrelado a atriz Molly Ringwald, a Juno da década de 80, em Gatinhas e Gatões, primeiro de quatro produções celebradas e inesquecíveis: as outras três são Clube dos Cinco e Mulher Nota 1000, os dois lançados em 1985, e o já citado Curtindo…, do ano seguinte. Todos clássicos absolutos. Filmes que jamais nos enjoam, com tramas divertidas, universais e atemporais. Afinal, não importa o ano ou a década, sempre vai haver um garoto deslocado em busca de identif**ação. Fora esse tato para levar compreensão e felicidade à garotada, o cineasta foi pródigo em catapultar a carreira de novos talentos. Revelou, além de Molly, atores como Emilio Estévez, e seu irmão Charlie Sheen, o próprio Matthew Broderick e até Macaulay Culkin, este último em Quem vê Cara Não vê Coração (1989). Produziu A Garota de Rosa Shocking (outro estrelado por Molly) e Alguém Muito Especial, filmes dirigidos por Howard Deutch, que foi lançado por ele, e ainda foi roteirista e produtor de vários longas infantis de sucesso como os três Esqueceram de Mim (1990, 1992 e 1997), Dennis, o Pimentinha 1993, Ninguém Segura esse Bebê (1994), 101 Dálmatas (1996), Flubber (1997) e Nadando Contra a Corrente (1998). Viveu recluso nos últimos anos, longe da mídia, o que tornou maior seu mito. Ainda colaborou com roteiros de Os Viajantes do Tempo (2001), Encontro de Amor (2002) e Meu Nome é Taylor, Drillbit Taylor (2008). Seu legado para o cinema é imenso. American Pie, Ela É Demais, Nunca Fui Beijada, Mal Posso Esperar, 10 Coisas que Eu Odeio em Você, De Repente 30, Ela Não Está Tão a Fim de Você e Juno beberam diretamente na fonte da escola John Hughes.
* Por André Azenha (proibida a reprodução em todo ou em parte deste conteúdo em a prévia autorização do autor)
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