05/06/2026
Muito interessante 🧐
CUNHA COM O SUL PARA CIMA
E se subvertêssemos a convenção cartográfica, posicionando o sul no topo? Teríamos uma nova visão de Cunha? Provavelmente sim, embora essa inversão possa causar, à primeira vista, certo estranhamento, haja vista estarmos profundamente habituados à representação tradicional, com o norte orientado para cima. Trata-se, contudo, de uma perspectiva alternativa para a apreensão do território cunhense, na medida em que evidencia sua proximidade com o mar. Em alguns pontos, Cunha dista apenas cerca de 9 km, em linha reta, do oceano Atlântico. Uma proximidade notável.
Esse exercício de “suleamento”, isto é, de orientação e interpretação do espaço a partir do sul, contrapõe-se à noção de “norteamento”, propondo, assim, uma visão de mundo de caráter decolonial, na qual os saberes, a cultura e a realidade do Hemisfério Sul assumem o papel de referenciais centrais. Como afirmou o artista uruguaio Joaquín Torres-García, “nosso norte é o sul”.
Essa perspectiva “suleada” de Cunha permite:
▪︎ Compreender o papel da maritimidade no controle do clima local. Tal fator, associado ao relevo, constitui o principal condicionante climático da região, contribuindo para a atenuação das amplitudes térmicas ao longo do ano e para o aumento da umidade do ar, sobretudo durante os invernos secos;
▪︎ Destacar as unidades de conservação que abrangem o território municipal, a saber: o Parque Estadual da Serra do Mar (PESM) e o Parque Nacional da Serra da Bocaina (PNSB);
▪︎ Evidenciar o papel histórico desempenhado por Cunha nos primeiros séculos da colonização, quando era conhecida como “Boca do Sertão”, isto é, uma porta de acesso ao interior do Brasil;
▪︎ Reafirmar sua vocação turística, caracterizada por um ambiente montanhoso, de clima ameno, e, ao mesmo tempo, por sua relativa proximidade com alguns dos mais destacados balneários do Sudeste brasileiro;
▪︎ Valorizar a ancestralidade indígena dos habitantes locais, uma vez que os povos Guaianases, em contraste com a interiorização, mantinham uma relação intrínseca com o litoral. Suas trilhas conectavam a costa ao planalto, transpondo a serra em deslocamentos sazonais.