08/06/2026
Freud, os conflitos patrimoniais e o valor de um imóvel.
Se Freud estivesse vivo hoje, talvez encontrasse nos conflitos patrimoniais um dos exemplos mais interessantes de sua teoria sobre a natureza humana.
Porque, na maioria das vezes, o conflito não está no imóvel.
Está no valor que cada pessoa deseja enxergar nele.
Em um inventário, por exemplo, todos observam o mesmo patrimônio.
Mas raramente observam o mesmo valor.
O herdeiro que pretende receber mais tende a enxergar um patrimônio mais valioso.
Quem deseja adquirir a parte dos demais frequentemente enxerga um valor menor.
O Fisco possui seus próprios critérios.
Os advogados recebem interpretações distintas.
E todos estão olhando para o mesmo imóvel.
Freud dedicou sua obra a compreender como desejos, expectativas, interesses e emoções influenciam a percepção da realidade.
Talvez dissesse que, quando interesses entram em cena, a objetividade deixa de ser natural.
A percepção começa a disputar espaço com os fatos.
E é exatamente nesse ponto que nascem muitos conflitos patrimoniais.
Porque a discussão deixa de ser sobre o imóvel.
Passa a ser sobre a interpretação do seu valor.
É por isso que a Avaliação Mercadológica Imobiliária possui uma função que vai muito além de atribuir um número ao patrimônio.
Sua verdadeira finalidade é estabelecer um valor tecnicamente demonstrável.
Um valor fundamentado em critérios objetivos.
Um valor capaz de ser explicado, justificado e sustentado perante herdeiros, sócios, investidores, instituições financeiras, o Fisco e o Poder Judiciário.
Em questões patrimoniais, talvez a pergunta mais importante não seja:
"Quanto vale este imóvel?"
Mas sim:
"Qual valor pode ser tecnicamente demonstrado?"
Porque quando não existe um critério técnico, surgem opiniões.
Quando surgem opiniões, aparecem interpretações concorrentes.
E quando interpretações concorrentes disputam espaço, o conflito encontra terreno fértil para crescer.
Talvez Freud resumisse tudo isso em uma única observação:
"Quando a realidade não é medida, ela é facilmente substituída pela interpretação."
No final, muitos conflitos patrimoniais não nascem da falta de patrimônio.
Nascem da ausência de um critério capaz de separar percepção de realidade.
E quanto maior o patrimônio envolvido, maior costuma ser o custo dessa ausência.
Na sua experiência, os conflitos patrimoniais surgem mais pela disputa do patrimônio ou pela disputa da interpretação do seu valor?
Rafael SCHMITT
Corretor e Avaliador Imobiliário
CRECI/RS 54.680 | CNAI 26.693