03/12/2025
Cheguei ao velório da Flávia com aquele velho sentimento de pesar. Mas, após o relato do Rodrigo sobre os últimos dias deles, fiquei profundamente impactado, e de repente aquele pesar já não era tão pesado.
Flávia era o tipo de pessoa que não apenas exercia uma profissão: ela encarnava uma missão. Uma missão divina.
Para ela, o parto não era apenas um procedimento médico. Era um momento profundamente humano, espiritual e de dignidade. Um rito de passagem.
Assim como no parto humanizado a mulher decide, confia, rende-se à natureza e ao mistério da vida, a Flávia, no momento mais difícil, pela graça e misericórdia de Deus, conseguiu acalentar a família, aceitar com fé o que estavam passando, confiar no Senhor e nos Seus desígnios e, segundo as palavras do Rodrigo, “fazer uma transição consciente, com fé, sorrindo. Com aquele jeito Flávia de ser.”
Ela dizia que o parto era sair da escuridão para a luz, e isso exige coragem, silêncio e entrega.
Ela acreditava que cada nascimento era sagrado, uma travessia.
É quando luz e vida atravessam o mistério, quando o invisível se torna presença, quando Deus decide tocar o mundo mais uma vez.
Se no primeiro parto somos recebidos pelos braços humanos, no último podemos ser acolhidos pelos braços eternos. Fiquei pensando que, certamente, ela teve essa clareza.
A transição para a eternidade é assim: um convite para soltar, confiar e permitir que Aquele que nos criou nos conduza novamente, agora para uma vida que nunca termina.
Se o parto é passagem, a morte também é.
Se no nascimento há mãos nos esperando, na eternidade há promessas nos esperando.
E assim, você, Flávia, que auxiliou tantos nascimentos, agora é recebida pelo Pai, e descansa na Vida que nunca acabará.
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