12/05/2026
Que saudade da época em que praticamente todo mundo desprezava político por igual. Era uma relação saudável: eles mentiam, a gente sabia que mentiam e a conversa acabava ali. Nenhum amigo meu brigava por causa de deputado. Ninguém transformava senador em entidade espiritual. E, principalmente, ninguém tratava ministro de corte suprema como se fosse integrante dos Beatles.
Eu cresci sem saber em quem meus amigos votavam. Ninguém dava a mínima para partido de ator, cantor, diretor de cinema ou jogador de futebol. Esse assunto simplesmente não fazia parte das mesas de bar. A gente discutia disco, filme, futebol, viagem, literatura, qualquer coisa. Política era só aquele barulho distante vindo de Brasília, lugar onde aparentemente viviam criaturas que apareciam na TV inaugurando ponte e roubando merenda.
Lembro perfeitamente de ir assistir "Diários de Motocicleta", do Walter Salles, sobre a viagem de Che Guevara pela América Latina, e ninguém saía do cinema sendo chamado de comunista. Era só um filme. Hoje, dependendo da camiseta que você usa na fila da pipoca, já tem alguém fazendo thread no Twitter tentando provar que você quer implantar uma ditadura bolivariana no condomínio.
É evidente que as redes sociais tiveram um lado positivo. Hoje é mais fácil saber o que políticos fazem com nosso dinheiro. O problema é que o brasileiro não usa essas informações para expulsar vagabundo do poder. Usa para escolher qual vagabundo vai virar seu mascote de estimação.
Criaram torcida organizada de político.
O sujeito passa anos roubando, mentindo, distribuindo cargo, aparelhando tudo e ainda assim surge alguém dizendo:
“Mas o meu rouba menos do que o seu.”
Olha o nível da tragédia nacional que chegamos. O debate político brasileiro virou competição de dentista do SUS: “esse aqui arranca o dente sem anestesia, mas pelo menos pede desculpas”.
E eu continuo detestando todos políticos com a mesma coerência democrática.
Não caio em dancinha de TikTok, discurso emocionado, pastel de feira mordido diante das câmeras nem foto abraçando criancinha em comunidade. Essa estética do “sou do povo” já virou sitcom ruim. Aliás, alguém precisa avisar aos marqueteiros que rico também come pastel. E dependendo da feira, só rico consegue. O preço do caldo de cana hoje já está perigosamente próximo de uma taça de vinho em um bar da Vila Olímpia.
Outra coisa fascinante é observar como o Brasil conseguiu destruir até as próprias paixões nacionais. E olha que nem tô citando a USP, que de orgulho brasileiro passou albergue de deficientes cognitivos.
Estamos a poucos passos de mais uma Copa do Mundo e olha que cena maravilhosa: antigamente qualquer cidadão sabia a escalação completa da seleção brasileira e não fazia ideia do nome de um ministro do Supremo. Hoje todo mundo conhece os onze togados, os suplentes, os assessores e até quem sonha em ganhar uma cadeira por indicação política, enquanto ninguém mais consegue citar três jogadores da seleção sem consultar o Google.
O que também é compreensível. Essa geração da seleção desperta menos emoção que livro de imortal da ABL.
E talvez nada simbolize melhor a insanidade coletiva do que a camisa amarela ter virado uniforme ideológico. Conseguiram politizar até a seleção brasileira. O mais curioso é transformar justamente a CBF em símbolo patriótico. A instituição menos patriota do hemisfério sul virou representação oficial do amor ao Brasil. Eis mais uma loucura brasileira que eu nunca irei compreender.
Agora, pra piorar mais a sanidade, colocaram chinelo e detergente no debate político.
Tem gente comprando cópia das Havaianas porque o modelo se chama “Pé direito”, como se estivesse participando de uma resistência clandestina contra a tirania mundial através de sandálias. E o crème de la crème desta semana (cada dia um prato diferente de alucinação) é sujeito bebendo detergente para “provar” que a Anvisa manipula informações.
A cena é tão bizarra que até a mais caricata primeira-dama ganha frase no roteiro de 5⁰:
“Até quando as pessoas vão continuar tomando detergente?” 🤡
O que já seria uma linha inacreditável em qualquer contexto minimamente civilizado, no Brasil atual entra naturalmente no noticiário político da semana, entre uma crise institucional e um vídeo de candidato "conservador" da "direita" dançando pancadão para viralizar no Reels e subir nas pesquisas.
A cada aparição pública da cozinheira de paca, ela parece se transformar no maior cabo eleitoral involuntário do adversário do próprio marido. E essa (e outras) declaração especificamente tem um grau de imbecilidade tão puro, tão artesanal, que talvez nem detergente industrial consiga remover a gordura cerebral que a inspirou.
O Brasil chegou num ponto em que o Louco da Turma da Mônica provavelmente olharia para a internet e diria: “Calma aí, pessoal.”
E se alguém decidir fazer ativismo político envolvendo detergente, por favor não beba o produto. Tenho uma proposta melhor.Venha aqui em casa e lave minha louça. Tenho Ypê à vontade e, diferente de certos debates políticos, pelo menos a pia produz algum resultado concreto.
A Toca do Lobo 🐺