31/08/2025
A meia-noite tinha acabado de chegar, trazendo aquele silêncio de alívio que só o 00:01 proporcionava. Liguei para a minha futura esposa, a pessoa que, em menos de um mês de namoro, viu algo em mim que nem eu enxergava. Era a forma mais barata e a única maneira de encurtar os 100 quilômetros que separavam Guararema de Taubaté. Estranhamente, eu, que não gostava de longas conversas no telefone, estava ali, na outra linha. Ficamos horas, como de costume, mas naquela madrugada, algo me dizia para desligar.
Eu não sabia o porquê. A conversa fluía, mas uma inquietação silenciosa me dominou. Quebrei o nosso ritual, disse que precisava desligar e me despedi. O telefone, que era a nossa ponte, ficou emudecido. Segundos depois, ele tocou. Um número desconhecido. A voz no outro lado era do hospital onde minha mãe estava internada nos últimos três meses. E o pedido não era de um milagre. Era de presença. “A família precisa vir.”
Naquele instante, a ficha caiu. Eu desliguei o telefone não porque quisesse, mas porque precisava. A linha tinha que estar livre. O destino tinha me feito encerrar a ligação para me permitir receber o chamado que traria a dor mais profunda da minha vida. A ligação que anunciava o fim. O fim de uma batalha contra o câncer que durava anos, o fim de uma presença que eu achava que seria eterna.
Com o coração destroçado, peguei o carro e parti. A dor me cegou, e as lágrimas embaçaram a estrada de Guararema a Jacareí. Eu dirigi chorando, sentindo cada quilômetro como uma facada no peito. Eu sabia que estava a caminho de encontrar o silêncio. Sabia que estava a caminho de dizer adeus à parte mais importante da minha vida. E até hoje, 19 anos depois, sinto que a madrugada daquela perda foi um momento diferente, algo sem explicação. Não me assombra, eu acredito que naquele momento algo soprou em meu ouvido “desligue”. E sou grato por isso, apesar da dor e da saudade. Eu sabia que ela estava sofrendo demais, e naquele momento, finalmente, ela descansou.
Sdds ….