15/02/2026
Eu não sou de direita, nem de esquerda. Eu sou Brasil.
Tenho 71 anos. Imaginem o que já vi, vivi, acreditei e desacreditei ao longo dessas décadas. Em 1980 votei no Lula, cheia de esperança. Era jovem, sonhava com mudança, com justiça social, com um país melhor. Sonhos de juventude.
No segundo mandato já não votei. Como muitos brasileiros, me senti enganada. Não sou especialista em números, mas aprendi a observá-los. Foquei nos fatos, no que percebia ao meu redor. E a percepção, às vezes, fala mais alto que qualquer discurso.
Minha monografia em Literatura foi sobre Vinicius de Moraes — que eu amava e continuo amando. Cantava todas as músicas do Chico Buarque. Letras lindas, profundas, imbatíveis. Quando ouvia aquelas canções, sonhava com aqueles homens jovens, fortes, idealistas. Eles representavam tudo o que eu admirava e queria ser. Era a soma do talento com o caráter, da arte com o ideal.
As músicas continuam maravilhosas. Isso não mudou. O que mudou foi a realidade.
Nunca imaginei que aqueles que gritavam por anistia, que nos chamavam para caminhar juntos por liberdade, pudessem hoje se posicionar contra essa mesma anistia. Como entender isso?
Vivi na ditadura. E digo algo que talvez choque: se tivesse que escolher entre o que vejo hoje e o que vivi ali, voltaria àquele tempo. Não por saudosismo, mas por desencanto com o presente.
Não é que as músicas de Chico, Caetano ou Gil tenham perdido a força. Elas continuam brilhantes. O que se perdeu foi a admiração pelo ser humano por trás da obra. Antes, para nós jovens da época, era um conjunto inseparável: talento, coragem, postura, ideal. Hoje, para mim, é só a música.
Continuo apreciando a arte. Nunca deixei de apreciar. Mas a graça na pessoa — aquela aura de referência moral e inspiração — essa ficou no passado.
Chico Buarque, gosto da sua música. Ponto final.