27/08/2025
O mercado imobiliário enlouqueceu!!!
Há uns anos, vender casa era vender paredes sólidas, janelas viradas para o sol e uma promessa de lar. Hoje, vende-se quase tudo: arrecadações sem janela, garagens sem água, barracas com telha de zinco e chão de cimento. Não são casas, mas são anunciadas como se fossem — e a preços que fariam corar a mais luxuosa penthouse de outrora.
O mercado imobiliário perdeu a compostura. Lisboa e Porto são os palcos mais visíveis dessa tragicomédia, mas a febre já contagiou aldeias e vilas: tudo o que tiver um teto, mesmo que seja baixo demais para ficar de pé, ganha anúncios com fotografias editadas e descrições fantasiosas. “Espaço versátil, cheio de potencial” pode significar um arrecadadoiro onde mal cabe uma cama. “Oportunidade única” traduz-se numa garagem sem licença de habitação, onde só a imaginação consegue instalar uma sala de estar.
A culpa é de muitos: da especulação que transforma paredes em ouro; da falta de regulação eficaz que permite vender como habitação aquilo que nunca o foi; da necessidade desesperada de quem não consegue pagar uma renda normal e se agarra a qualquer hipótese de ter um teto. E, no meio disso, proliferam investidores que compram barato, envernizam com tinta branca e vendem caro, chamando “estúdio” ao que antes era arrecadação de bicicletas.
Chegámos ao ponto em que o mercado já não vende casas, vende ilusões. O direito a habitar tornou-se um luxo, e a dignidade, um extra pago à parte. Talvez a maior ironia seja esta: os anúncios falam de “charme” e “potencial” quando o que está em jogo é, simplesmente, a sobrevivência.
O imobiliário enlouqueceu, sim. Mas quem paga a fatura são sempre os mesmos: os que sonham com casa e acordam, cada vez mais, dentro de quatro paredes que nem sempre se podem chamar lar.