22/01/2026
A maioria das pessoas não compra, mas troca de casa. E o problema é que o mercado, nas condições atuais, não permite tão “facilmente” essa troca.”
Partilho a visão de Carlos Alberto Santos, Head Director do Hub Zome Pr1me Cascais.
"O ano mudou. O mercado não.
Entrámos em 2026, mas convém não confundir calendário com realidade, as 12 passas não fazem milagres e o mercado imobiliário não faz resets automáticos.
O que regula este mercado continua a ser o mesmo de sempre, a lei da oferta e da procura, sobre a qual as políticas públicas podem tentar interferir ora apertando a oferta ora tentando travar a procura, podendo mudar ou reforçar-se, mas nunca com efeitos imediatos, porque em mercados estruturais o impacto simplesmente não é instantâneo.
Começando pela procura.
Os dados do Instituto Nacional de Estatística mostram que Portugal continua com taxas de desemprego historicamente baixas, há emprego, havendo emprego há rendimento e havendo rendimento há procura habitacional, isto não é opinião, é um facto.
O que mudou não foi a existência da procura, foi a sua forma, a estrutura das famílias está diferente, há agregados mais pequenos, mais decisões individuais e necessidades de habitação mais ajustadas à realidade atual, isto ajuda a explicar a pressão em tipologias mais reduzidas e um mercado muito menos tolerante ao erro.
Há aqui um ponto que importa dizer como ele é: hoje a maioria das pessoas não compra casa, tenta trocar de casa.
E o problema é que o mercado, nas condições atuais, não permite essa troca com facilidade.
Mesmo com aumentos salariais pontuais, a maioria das famílias não teve ganhos reais suficientes para dar o salto para uma casa diferente ou maior.
Resultado: ficam onde estão, não libertam stock e o parque habitacional não roda, quando não roda, a pressão acumula-se, sobretudo na base do mercado.
A esta procura soma-se a procura internacional, Portugal continua a ser atrativo para estrangeiros pela segurança, qualidade de vida e posicionamento global, este fator não explica tudo, mas explica parte do mercado, sobretudo em localizações específicas, ignorá-lo é erro de análise, exagerá-lo também.
Do lado da oferta, o problema é estrutural, constrói-se, mas não à velocidade necessária, no terreno, vender uma casa pode demorar cerca de 120 dias, licenciar uma nova pode demorar o dobro ou mais, a própria OCDE tem sido clara ao apontar o licenciamento lento e a falta de previsibilidade como travões à resposta do lado da oferta.
Por tudo isto, importa ser claro: não prevejo que 2026 traga uma mudança estrutural no mercado imobiliário português.
O que vai mudar é o comportamento das pessoas, mais contenção, mais pragmatismo e maior ajuste de expectativas.
Num mercado mais técnico e menos permissivo ao erro, a mediação imobiliária torna-se determinante, não chega abrir portas, é preciso interpretar dados, gerir expectativas e ajudar pessoas a tomar decisões possíveis.
A pergunta final é simples:
Vamos continuar a fingir que o mercado devia ser outro ou vamos trabalhar com o mercado que temos?"
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