07/10/2026
Ultimamente tenho pensado muito sobre humildade e capacidade para aceitar frustrações.
E, fazendo um paralelismo com aquilo que vou observando no nosso dia-a-dia, às vezes vejo adultos a reagirem como crianças quando as coisas não correm exactamente como queriam.
Atenção: tenho humildade suficiente para perceber que eu própria terei certamente as minhas questões para trabalhar. Todos temos. Talvez não consiga ser sempre tão assertiva como gostaria . Mas também acredito que há mínimos.
E saber ouvir um “não” é um deles.
Quando alguém contrata um profissional de mediação imobiliária, uma das coisas que menos quer é ter de lidar directamente com dramas, pressões e frustrações de terceiros.
Delega essa gestão em mim. E faz muito bem. Faz parte do meu trabalho.
Esta semana que passou tive um episódio que é quase um pequeno estudo sobre a dificuldade em aceitar uma decisão.
Na quarta-feira à tarde fizemos várias visitas a um imóvel. Como sempre faço, recebi colegas de outras agências ( aliás, a maioria das visitas foi realizada com colegas)
Houve quem gostasse, quem não se interessasse e quem demonstrasse vontade de avançar. Tudo normal.
Era também evidente que teríamos várias propostas e alguma disputa pelo imóvel.
Uma colega trouxe uma jovem que, segundo percebi, procurava casa há cerca de um ano. Durante a visita não me pareceu particularmente entusiasmada, mas pouco depois apresentou uma proposta: 10.000 € abaixo do valor pedido.
Foi, na realidade, a proposta mais baixa que recebemos e as restantes condições também não eram especialmente competitivas.
Entretanto chegaram outras propostas: algumas ligeiramente abaixo do valor pedido e várias pelo preço.
Reuni posteriormente com os proprietários e, entre as propostas recebidas, havia uma que reunia aquilo que para eles fazia sentido: valor pedido, um bom sinal e bons capitais próprios.
A decisão foi, por isso, relativamente simples.
Comuniquei-a aos colegas. Aos restantes interessados foi transmitido, com toda a transparência, que os proprietários tinham tomado uma decisão. E a proposta aceite seguiu com as diligências e compromissos habituais incluindo despesas bancárias.
Fim da história.
Ou seria.
Porque, depois de saber que a sua proposta não tinha sido escolhida, a interessada que tinha apresentado a proposta mais baixa decidiu aumentá-la de forma absolutamente extraordinária, passando de 10.000 € abaixo do preço pedido para um valor consideravelmente acima dele.
Os proprietários não quiseram alterar a decisão que já tinham tomado. Portanto segue um conselho grátis : amam uma casa e podem dar o valor … não façam propostas abaixo arriscando a perder !
E é aqui que entramos no capítulo que eu dispensava.
A interessada aparentemente não aceitou bem a decisão e passou a deslocar-se ao imóvel e a colocar carta por baixo da porta, fazendo esperas e tentando contactar directamente os proprietários.
E aqui já não estamos a falar de negociação imobiliária.
Estamos a falar de não saber aceitar um “não”.
Podemos ficar desiludidos. Podemos achar que devíamos ter oferecido mais. Podemos arrepender-nos da estratégia que escolhemos. Podemos até ficar zangados connosco próprios.
Tudo isso é humano.
Mas uma decisão tomada por outra pessoa não deixa de ser uma decisão só porque estamos dispostos, depois de a perder, a oferecer mais dinheiro.
Talvez, além da documentação habitual necessária para comprar casa, esteja a começar a fazer falta outro requisito: capacidade para lidar com a frustração. 😉
Brincadeiras à parte, há uma coisa que levo muito a sério:
negociar não é pressionar até alguém ceder.
Persistência não é ultrapassar limites.
E profissionalismo também se mede pela forma como aceitamos quando a resposta é “não”.
No imobiliário, como na vida, nem sempre conseguimos aquilo que queremos.
Saber lidar com isso também é crescer.