02/02/2026
PRR e Habitação: o tempo não espera — e as casas também não
Ao começar este texto, a verdade é que não o escrevo por “moda”, nem por alinhamento político. Até porque quem me conhece sabe bem qual é a minha corrente política. Mas quando há que criticar, critico — independentemente da cor ideológica.
Escrevo porque trabalho com território, imóveis e pessoas. E porque começo a sentir um desconforto que já senti antes e que percebo que muitos colegas consultores também partilham. Sabemos que o tempo se está a esgotar… e, ainda assim, fingimos que isso não está a acontecer.
Estamos a oito meses do fim do prazo do PRR e o programa 1.º Direito soma quase 17 mil habitações entregues. Num universo de 26 mil prometidas, uma leitura superficial diria que o resultado é aceitável.�Mas quando se analisa com detalhe, a realidade muda de forma abrupta: apenas 1.568 são de construção nova. Pouco mais de 9%.
Eu sei — muitas vezes reabilitar é necessário e, por vezes, urgente. Mas quando quase toda a resposta pública se resume a isso, na minha opinião, não estamos a resolver um problema de habitação. Estamos apenas a geri-lo.�A construção nova — aquela que cria oferta pública real, planeada e com futuro — continua a ser residual.
Ouvem-se as explicações habituais: eleições, atrasos na validação, mudanças nas equipas técnicas dos municípios. Tudo isto é verdade. Quem anda no terreno conhece bem essas limitações.�Mas sabemos também outra coisa: tudo isto era previsível.�E quando algo é previsível, deve ser acautelado.
A própria lógica de execução ajuda a explicar parte do problema. Avançaram primeiro os projetos mais simples, os que estavam prontos e davam resultados rápidos. Os mais complexos, os mais estruturantes, os que inevitavelmente demorariam mais… f**aram para depois.
O resultado está à vista: poucas casas novas, pouco legado.
Lisboa e Porto, onde a pressão é maior, concentram naturalmente a maior parte das entregas. Mas f**a uma questão que não pode ser evitada: estamos a usar o PRR para corrigir o sistema ou apenas para aguentar o impacto?
Estamos a falar de mais de quatro mil milhões de euros. Isto não é um programa qualquer. É uma oportunidade única de fazer diferente — e, acima de tudo, de fazer melhor.
O problema não é termos feito pouco.�O problema é termos feito o fácil… e adiado o essencial.
Ainda há tempo. Pouco, mas há. Tempo para decidir melhor, reforçar equipas, assumir prioridades e dizer, sem medo, que cumprir metas não chega se não houver mudança estrutural.
A habitação não se resolve com pressas de calendário nem com relatórios otimistas. Resolve-se com visão, execução e coragem.
Quanto ao tempo… esse não espera por ninguém.