01/12/2021
VIVA PORTUGAL!
A 1 de Dezembro de 1640 terminava o longo pesadelo iniciado mais de 60 anos antes (formalmente a perda da independência face à Espanha deu-se apenas em 1580 com a morte do Cardeal D. Henrique e a aclamação de Filipe II de Espanha como Filipe I de Portugal).
Na verdade, o reino há muito que agonizava e a mal medida aventura de Alcácer-Quibir fez perder bem mais do que a independência: fez perder a flor da juventude militar, a nata da sociedade nobiliástica e o resto da fazenda nacional e das poupanças particulares em resgates e indemnizações de guerra aos mouros do norte de África. D. Filipe II de Espanha, ao contrário do que se possa dizer, não tinha como prioridade apoderar-se de Portugal e chegou mesmo a aconselhar o seu sobrinho D. Sebastião a que não se metesse nessa triste aventura, que casasse primeiro e assegurasse descendência como lhe diziam os sábios. D. Sebastião, que fora educado entre padres e missas, num espírito tardio de ultra-medievalidade já ultrapassado naquele tempo, de luta pela fé e de batalhas de outros tempos, tinha mais medo de mulheres do que da morte e fez ouvidos moucos a todos os que lhe apontavam as dificuldades, a inutilidade e o erro que era aquela expedição que preparava. Perdido o rei, perdida a hipótese sucessória em linha recta, entrou-se num triste e doloroso consulado do seu tio-avô, Cardeal D. Henrique que adiou, até à eternidade uma tomada de posição sobre a sua própria sucessão, fosse pela bastardia de D. António Prior do Crato, fosse pela própria animosidade que contra ele nutria por ter abandonado as lides religiosas, a verdade é que o velho Cardeal ainda pediu dispensa papal para casar numa patética e desesperada tentativa de gerar, velho e doente, uma linha sucessória. Portugal caiu, de facto em 1580 mas estava de joelhos havia muito.
Morto o Cardeal e banido D. António Prior do Crato para longe, Filipe II de Espanha concordou com uma série de autonomias administrativas e de regras que nos permitem falar numa concentração de coroas na mesma pessoa e não numa perda total de independência. Portugal continuou a ser um país, a ter a sua língua, a ter autonomia financeira e administrativa, não tinha era um monarca português no trono!!! De toda a forma era uma subserviência a um monarca estrangeiro e a inclusão do nosso país e do nosso império num império que não era o nosso. O sentimento de independência e de revolta face aos sucessivos abusos e crescente poder e influência da gestão espanhola do nosso território, bem como as tensões acumuladas pela obrigatória participação de tropas e capitais portugueses nas aventuras imperialistas espanholas foram corroendo uma integração que inicialmente mais do que pacífica foi até bem quista, tamanha era a miséria que grasava em Portugal.
No reinado de Filipe IV de Espanha (Filipe III) de Portugal, as dificuldades financeiras de Espanha e o saque necessário de recursos humanos e financeiros para a sustentação de um império insustentável, a perda de autonomia, o desrespeito pelo acordo de autonomia firmado pelo primeiro dos Filipes, a perda de recursos, a perda de algumas praças "portuguesas" no Brasil a favor de franceses e holandeses sem a devida resposta do monarca espanhol, foram a gota de água que fez transbordar o copo. Houve inúmeras revoltas populares nesse tempo, sendo a do Manelinho de Évora a mais conhecida e a governação espanhola de Portugal. Pelo caminho, nasceu e foi crescendo o mito Sebastiánico que sobrevive até hoje, do aguardado regresso de D. Sebastião, numa manhã de nevoeiro, para novamente se sentar no trono um português. Chegou inclusive a haver vários "regressos" de D. Sebastião (o de Peniche é o mais famoso) imediatamente desmascarados mas que eram um sinal latente da indomável vontade dos portugueses de serem novamente e definitivamente independentes como éramos desde o século XII (diga-se que o regresso de D. Sebastião era desnecessário uma vez que o corpo dele voltou e a urna encontra-se até hoje nos Jerónimos, sendo que apenas a mentalidade da época - a vergonha em ver o rei morrer em batalha sem dar a vida para o proteger - fizeram com que não se assumisse que ele tinha morrido). O estado de coisas foi-se deteriorando, o aumento de impostos brutal imposto pelo famigerado Duque de Olivares, braço direito de Filipe III, e a política de perda de autonomia aprofundada pelo sobrinho do Olivares mais tarde, tornou não só para Portugal mas para muitas das províncias Espanholas e outras possessões a situação insustentável. Quando, finalmente, o indeciso D. João, Duque de Bragança e futuro D. João IV, perante este estado de coisas abandonou a prudência e a distância com que até ali havia gerido a sua posição (diz-se que a mulher, espanhola, terá dado um "empurraõzinho com o famoso "antes rainha por um dia que duquesa toda a vida"), rapidamente os revoltosos puseram em marcha uma movimento destinado à recuperação da independência nacional, à restauração de um monarca português o trono de Portugal. Dando o trono a D. João, garantiram um rosto, uma figura rica e poderosa, uma linhagem da mais alta nobreza, para levar a rei, num movimento de restauração que, diga-se, sem qualquer oposição digna desse nome, tomou novamente as rédeas do destino nacional, inaugurando assim a 1 de Dezembro de 1640 a 4.ª e última dinastia portuguesa: a de Bragança!!!
Por tudo isto, o 1.º de Dezembro deve ser assinalado e comemorado condignamente e faz com que muito mais do que outros feriados de consistência histórica duvidosa e utilidade positiva na vida da nossa nação improvada, devesse ser feriado e talvez o mais importante do ano civil nacional, enquanto data importante para uma colectividade política da nação!!!
VIVA PORTUGAL!!!