04/09/2025
Há algo de comovente em ver uma criança preparar-se para o primeiro dia de escola. A escolha cuidadosa do conjunto perfeito, preparado na noite anterior. A nova mochila, fechada e aberta uma dúzia de vezes para garantir que tudo está no sítio certo. O ensaio silencioso de caminhar até à paragem do autocarro, só para ter a certeza de que conhece o caminho.
A maioria de nós lembra-se da sua própria versão deste ritual. Talvez fosse praticar a combinação do cacifo durante todo o verão, com medo de se atrapalhar num corredor cheio de gente. Ou decorar o percurso entre salas de aula, preocupado com a possibilidade de chegar atrasado e ter todos a olhar. Esses preparativos aparentemente pequenos eram de uma importância monumental porque, na mente de uma criança, assim o eram.
O que me impressiona agora é como nós, adultos, por vezes esquecemos o que é enfrentar algo completamente novo. Esquecemos que cada “primeira vez” exige uma dose especial de coragem. Aquele miúdo de seis anos a treinar o caminho até à paragem de autocarro está a fazer exatamente o que todos nós fazemos quando enfrentamos o desconhecido: encontrar aquela pequena coisa que podemos controlar e dominar.
A verdade é que nunca deixamos realmente de sentir aquelas “borboletas no estômago” do primeiro dia. Começar um novo trabalho, mudar para uma nova cidade, entrar numa sala cheia de desconhecidos – aquela sensação subtil de incerteza continua lá. A mesma necessidade de nos prepararmos, de praticarmos, de nos sentirmos prontos para aquilo que não conseguimos prever.
Talvez seja isso que a verdadeira coragem significa. Não a ausência de medo, mas a disposição para dar o primeiro passo mesmo assim, mesmo quando o coração dispara e não temos a certeza do que vem a seguir.
Afinal de contas, todos nós fomos principiantes, uma vez.