24/05/2026
BIM, digitalização e o futuro da promoção imobiliária
Nas últimas aulas, uma das reflexões que mais me ficou foi esta: a transformação digital no imobiliário não deve ser vista apenas como uma evolução técnica. Deve ser vista como uma oportunidade estratégica para construir melhor, vender melhor e comunicar melhor.
Durante muitos anos, o setor imobiliário habituou-se a vender a partir de plantas, áreas, renders, mapas de acabamentos e promessas. Em muitos casos, vendeu- se uma ideia. Um sonho. Uma expectativa.
Mas num mercado cada vez mais exigente, mais caro e mais competitivo, talvez isso já não chegue.
O BIM pode ter aqui um papel muito mais profundo do que simplesmente organizar informação técnica de projeto. Pode transformar a forma como o produto imobiliário é pensado, desenvolvido, comunicado e vendido.
Na área comercial, isto é particularmente relevante.
Porque vender um imóvel não é apenas vender quatro paredes. É vender uma forma de viver. É vender luz, funcionalidade, conforto, arrumação, eficiência, circulação, relação entre divisões, qualidade construtiva, manutenção futura,
sustentabilidade, custos de utilização e até a capacidade de adaptação da casa à vida real de quem a vai habitar.
E é precisamente aqui que a digitalização pode mudar o jogo.
Com BIM, dados e uma visão integrada do projeto, o comercial pode deixar de vender apenas “uma planta” e passar a contar uma história mais completa, mais precisa e mais credível.
Uma história suportada por dados reais, visualização
clara e informação consistente.
O cliente não quer apenas saber quantos metros quadrados tem uma sala. Quer perceber se aquela sala funciona para a sua vida. Se há espaço para receber família. Se a cozinha responde ao seu estilo de utilização. Se a arrumação é suficiente. Se a casa envelhece bem. Se o investimento faz sentido. Se o projeto
foi pensado para pessoas reais e não apenas para cumprir métricas de construção.
Num mercado como o português, onde a procura continua forte em várias geografias e onde muitos produtos são vendidos ainda em fase de projeto ou construção, esta capacidade de comunicar com rigor pode ser decisiva.
Mas esta reflexão não deve ser dirigida apenas às equipas comerciais.
Deve ser também uma nota clara para promotores e construtores imobiliários.
Num contexto em que os custos de construção continuam sob pressão, projetar melhor desde o início deixou de ser apenas uma questão de qualidade. Passou a ser uma questão de margem, eficiência e sobrevivência competitiva.
Em março de 2026, o INE indicava uma subida homóloga de 5,8% no índice de custo de construção de habitação nova em Portugal, com a mão de obra a subir 8,2% e os materiais 3,7%.
Este dado deve fazer-nos pensar.
Quando a mão de obra pesa cada vez mais, quando os materiais continuam voláteis e quando a margem para erro é menor, cada decisão mal integrada em fase de projeto pode transformar-se em custo, atraso, desperdício ou perda de valor comercial.
O BIM não elimina todos os riscos, naturalmente. Mas pode ajudar a antecipar incompatibilidades, melhorar a coordenação entre equipas, reduzir ruído entre projeto, obra, comercial e pós-venda, e criar uma base de informação mais fiável para tomar decisões.
No fundo, permite fazer algo essencial: pensar melhor antes de construir.
E pensar melhor antes de construir é também vender melhor depois.
O BIM permite ainda uma comunicação mais rica e personalizada. Permite ao promotor, à equipa comercial, ao marketing, aos projetistas, à construção, aos parceiros financeiros e até ao pós-venda trabalharem sobre uma base comum de informação.
Isto reduz desalinhamentos. Reduz promessas vagas. Reduz improviso. E aumenta confiança.
Há ainda outro ponto que considero pouco explorado na promoção imobiliária: o potencial de cruzamento com todas as indústrias que gravitam em torno da casa.
Na indústria automóvel, o cross-selling é trabalhado há muitos anos: financiamento, seguros, manutenção, garantias, acessórios, extensão de serviços, personalização. No imobiliário, esse potencial ainda está longe de estar totalmente desenvolvido.
Imagine-se um promotor conseguir ativar, com inteligência e dados, relações estruturadas com soluções de crédito, seguros, domótica, eficiência energética, mobiliário, arrumação, decoração, manutenção, mobilidade elétrica, gestão de
condomínio, serviços pós-venda e soluções para investidores.
Não como ruído comercial. Mas como ecossistema de valor.
Um cliente que compra casa não está apenas a comprar um ativo. Está a iniciar uma nova fase de vida. E essa fase envolve muitas decisões antes, durante e depois da escritura.
Quem conseguir organizar essa experiência de forma inteligente terá uma vantagem competitiva clara.
A digitalização também pode ajudar os promotores a perceber melhor a procura real. E isto é essencial.
Hoje, muitos compradores enfrentam um desafio concreto: as casas são cada vez mais caras, as áreas são muitas vezes mais contidas e as necessidades de utilização são cada vez maiores.
Arrumação, flexibilidade dos espaços, zonas de trabalho, eficiência, privacidade e conforto deixaram de ser detalhes. São fatores de decisão.
Se os dados forem bem utilizados, talvez seja possível ajustar melhor a oferta à procura. Construir com mais consciência. Comunicar com mais verdade. E vender
com mais valor percebido.
No fundo, os promotores que melhor integrarem esta visão poderão ficar associados não apenas à construção de edifícios, mas à criação de lugares mais bem pensados, mais eficientes e mais alinhados com a vida das pessoas.
E é isso que constrói marca no tempo.
O mercado conhece exemplos de nomes que ficaram associados a uma forma de construir, a uma assinatura, a uma reputação e a uma confiança acumulada ao longo dos anos. No Porto, por exemplo, nomes como Ferreira dos Santos mostram
como a consistência, a perceção de qualidade e a confiança podem perdurar muito para além de uma venda isolada.
As empresas que perduram são as que conseguem gerar valor para todos: para quem promove, para quem constrói, para quem vende, para quem investe e, acima de tudo, para quem vive dentro dos espaços.
Acredito que o futuro do imobiliário passará cada vez mais por esta lógica win-win.
Menos improviso. Mais dados.
Menos comunicação genérica. Mais precisão.
Menos venda de metros quadrados. Mais venda de soluções reais para a vida das pessoas.
O BIM não é apenas tecnologia.
É uma oportunidade para o setor imobiliário evoluir na forma como pensa, constrói, comunica e vende.
JAG