05/07/2023
Testemunho de uma educadora que é urgente partilhar.
“Sou Educadora de infância há 13 anos e nunca cheguei ao final de um ano letivo a sentir-me tão esgotada como este ano. Trabalho numa escola com os valores morais certos, tenho um ambiente de trabalho muito saudável, uma equipa fabulosa e um projeto pedagógico na qual me revejo totalmente. O jardim-de-infância onde trabalho não tem ecrãs disponíveis e há muito que decidimos remar contra a maré que teima em permitir o acesso precoce às novas tecnologias. Chego esgotada ao final do ano letivo por sentir que estou a concorrer com um inimigo de peso: o uso do telemóvel por parte de crianças com 2/3/4 ou 5 anos. De repente as crianças aos 3 anos de idade falam brasileiro recorrentemente (sem serem de nacionalidade brasileira), o castanho passou a chamar-se marrom e o tik-tok transformou-se em conteúdo educativo. Os Pais alienaram-se da parentalidade e as crianças estão a ser educadas pelo Lucas Neto. As refeições passaram a ser feitas enquanto olham para um ecrã e quando se deparam com os pratos de comida da escola (sem ecrã para onde olhar) não reconhecem metade dos alimentos. Não podemos reconhecer o que não olhamos verdadeiramente. Nunca em outra época se viram níveis de autonomia tão diminutos e tão pouca relação com os livros de histórias. Como é que eu, Educadora que conta uma história sentada no chão com as perninhas à chinês, consigo concorrer com um ecrã? Os ecrãs geram super estimulação e por isso as crianças perderam a perspectiva de se sentirem aborrecidas (o aborrecimento gera criação ou improvisação de novas brincadeiras) pois habituaram-se a "arrastar para o lado" o que não gostam. As crianças estão a perder a capacidade de encontrar soluções para os problemas, de gerir a frustração, de autoregularem as emoções. Tudo lhes é acessado através de um pequeno aparelho como se Mundo coubesse nele. Não cabe. De repente, a voz das Educadoras e Auxiliares tornou-se pouco interessante para as crianças, ouvir o adulto é uma excepção à regra e os índices de perda de acuidade visual estão elevadíssimos (as crianças começam a usar óculos cada vez mais cedo). É difícil competir com um telemóvel, com o estímulo constante que é um ecrã, com a sobreposição frenética de temas e com a inércia que um telemóvel alberga. O telemóvel não exige esforço e o pensamento crítico nas crianças começa a entrar em declínio. De repente, o brinquedo preferido das crianças de 3 anos é o telemóvel da Mãe e as peças de legos da área dos jogos são deslocadas para criar telemóveis e botões. As crianças estão mais agitadas do que nunca e com uma visão redutora do Mundo, com menos empatia pela Natureza e fisicamente menos disponíveis para simplesmente correr ou saltar. Fazer bolinhas de areia deixou de ser interessante. Estão-se a perder competências sociais e a relação com os pares tem que ser amplamente estimulada ou não existe.Os gestos físico de maior agressividade são frequentes porque as crianças transferem os jogos de telemóvel para as relações interpessoais. Dizem os números que daqui a 30 anos haverá pouquíssimas Educadores de infância em Portugal e os números de ingresso ao curso na faculdade baixaram 20% já este ano. As Educadoras de infância que conheço estão desacreditadas e a grande maioria já deixou a profissão. Urge acordar. A decisão de expor uma criança ao telemóvel é tão simples quanto a de não expor. É uma decisão que se toma , que se assume e é da responsabilidade de todos aqueles que participam na vida das crianças. Não sei que caminho tomaremos em Portugal no que respeita à primeira infância mas sei que é cada vez mais desafiante ser Educadora nos tempos que correm e acreditem, a raiz do problema não são as crianças. As crianças são crianças, maravilhosas, em qualquer escola ou parte do País. No meu caso em particular, ainda é por elas, sempre elas, que me mantenho na profissão. Este texto não é sobre nenhuma criança ou Pais em particular. É sobre uma geração e é apenas a MINHA perspetiva.”
Silvana de Almeida